Para começar, um provocativo texto de Luciano Trigo sobre a ascensão da e-massa, preocupante categoria sócio-psicológica que vem se alastrando pela rede mundial de computadores. O comportamento de manada, isento de responsabilidade, oriundo do nazi-fascismo dos anos 30 do século XX migrou para a internet no século XXI.
As redes sociais estão se tornando veículo para perigosos rituais de justiça sumária e linchamento virtual
Nos anos 30 do século passado, assustado diante da incompreensível
adesão do povo alemão ao nacional-socialismo em ascensão, o escritor
búlgaro Elias Canetti decidiu tentar decifrar o misterioso processo por
meio do qual os indivíduos, quando diluídos na massa, são capazes de dar
vazão aos instintos mais irracionais e agressivos, abrindo mão de sua
consciência crítica e deixando suas vidas serem pautadas por verbos como
mandar e obedecer, matar e destruir – bastando para despertar esses
impulsos a simples e insuportável presença do outro, de formas de agir e
maneiras de pensar que ameaçam o sentimento de segurança proporcionado
pela tribo.

Canetti publicou suas conclusões em 1960, no hoje clássico ensaio
Massa e Poder.
Nesse empreendimento intelectual de várias décadas, ele demonstrou as
raízes históricas desse comportamento: já em tempos imemoriais, quando o
condenado era apedrejado por todos, ninguém assumia o papel de
executor. Em determinados países da África, prisioneiros eram enterrados
em formigueiros, para que as formigas fossem o carrasco. Mesmo nos
pelotões de fuzilamento, os soldados que efetuavam os disparos não eram
responsáveis pela execução, já que estavam cumprindo uma missão delegada
pela sociedade. A mesma lógica pode ser aplicada aos romanos que
crucificaram Jesus Cristo, já que a sentença foi dada pela massa.
Já em 1986, voltando ao tema, Canetti declarou: “Ainda hoje todos
participam das execuções públicas, através dos jornais. A diferença é
que assim tudo fica mais cômodo. Pode-se ficar tranquilamente instalado
em sua própria casa, e, quando tudo termina, o prazer não é estragado
pelo mais leve vestígio de culpa.” Ainda não existia a Internet, muito
menos as redes sociais. Mas linchamentos midiáticos já eram práticas
consolidadas.
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Um caso pessoal. Em 2009 lancei um livro propondo uma reflexão sobre a
situação da arte contemporânea, ‘A Grande Feira’, uma análise do
conjunto de valores, práticas e instituições que determina, no presente
como em qualquer época, o que se considera boa arte, com inevitáveis
implicações no mercado. Em poucos dias meu livro se tornou objeto de
ódio mortal de um grupo de artistas e seus dependentes nas redes
sociais, com
posts em que fui chamado de nazista e stalinista,
para citar os termos mais brandos. Curiosamente, o ponto em comum entre
todos os furiosos defensores do sistema da arte que tive a ousadia de
criticar era: nenhum deles tinha lido meu livro.

Mesmo
sendo um episódio de importância minúscula, envolvendo poucas dezenas
de pessoas, tive ali o primeiro contato, no papel de alvo, com um
fenômeno social que desde então vem crescendo de forma assustadora: o
uso das redes como veículo de rituais de justiça sumária. Em catarses
coletivas, disparadas por diferentes pretextos, internautas se mobilizam
– às dezenas, centenas ou milhares, dependendo do assunto e do
tratamento dado pela mídia – para promover linchamentos virtuais que
seria ingênuo classificar de inofensivos, já que podem ter impactos
sérios na imagem e na vida de indivíduos e empresas, ou de determinar o
sucesso ou o fracasso de obras artísticas e produtos comerciais.
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O ato de agressão coletiva não é apenas de êxito garantido – pela
superioridade numérica em relação à vítima indefesa; ele também elimina o
risco de punição. A responsabilidade pelo que é dito, da mesma forma
que a identidade de quem diz, é diluída no anonimato do grupo. Na massa
virtual com quem compartilha sua raiva, o internauta encontra um sentido
que talvez não exista em sua existência real, medíocre e atomizada. Daí
sua entrega eufórica à desrazão coletiva, que eserce sobre ele a mesma
atração hipnótica que a música eletrônica sobre mentes alteradas. A esse
fenômeno recente, diretamente vinculado à expansão das redes sociais,
proponho chamar, na falta de melhor termo, de “e-massa”.
A e-massa enxerga a realidade em preto e branco e divide as pessoas
em “nós” e “eles”. A e-massa se compraz em ironizar, debochar, humilhar,
diminuir, expor ao ridículo. A e-massa sabe que sua força vem de sua
união, não da consistência de seu pensamento. A e-massa é dogmática: tem
a convicção de estar com a razão e está disposta a esfolar e arrebentar
quem discordar dela. A e-massa se julga democrática e defensora da
liberdade e da tolerância, quando na verdade é autoritária, intolerante e
desconhece a liberdade de quem pensa de forma diferente.
Hoje assistimos rotineiramente à conformação de coletivos, para usar
um termo da moda, que se mobilizam (mas também se desmobilizam)
rapidamente, movidos pelo instinto de manada e pela necessidade de
afirmação, de reconhecimento, de pertencimento, em ataques à vítima da
vez. Basta ter uma conta no Twitter ou um perfil no Facebook para
qualquer indivíduo se arvorar como juiz, promotor e carrasco em casos
que mal compreende. O que importa é estar do lado certo – isto é, do
lado de quem ataca.
Qualquer assunto que esteja na mídia pode ser motivo para um novo
apedrejamento, e não é preciso forçar a memória para identificar
exemplos recentes desse fenômeno:

- o linchamento virtual de um participante da última edição do
Big Brother Brasil,
acusado pela e-massa de estupro e mais tarde inocentado – quando já
tinha sido expulso do programa, com conseqüências para sua vida e
profissão que só ele pode avaliar. Curiosamente, logo depois que ele
saiu, a e-massa iniciou outro movimento igualmente irracional, pedindo
sua volta pelo Twitter: o #foradaniel virou #voltadaniel. Vale lembrar
que outro suposto estuprador, Strauss Kahn, destruído pela mídia e pela
e-massa, provavelmente seria hoje o novo presidente da França se não
tivesse sido destruído pela mídia e pela e-massa;

- o caso da proibição pela Justiça do longa-metragem
Um filme sérvio,
por conter cenas que simulam estupro de recém-nascido e outras
violências contra crianças: o advogado que moveu a ação contra a
exibição do filme, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente em
vigor, sofreu uma avalanche de mensagens ofensivas em seu perfil no
Facebook. Esse caso também é exemplar da voracidade passageira da
e-massa: o filme continua proibido (por determinação do Judiciário,
como, aliás, também acontece em diversas democracias avançadas), mas
ninguém se lembra mais do assunto: o furor da e-massa contra a “censura”
(que talvez traduza uma nostalgia inconsciente da ditadura) foi tão
efêmero quanto intenso;

- o mesmo argumento da censura (palavra mágica que tem o poder de
mobilizar instantaneamente a e-massa, mesmo quando de censura não se
trata, mas de direito de escolha de quem promove ou de simples
cumprimento da lei por quem proíbe), choveram protestos virtuais contra o
Oi Futuro por ter cancelado uma exposição da artista americana Nan
Goldin com fotografias de menores nus e de atos sexuais e de consumo de
drogas diante de crianças. A instituição manteve o patrocínio à
exposição, transferida para o MAM, e esclareceu que simplesmente julgava
inadequado abrigá-la num espaço constantemente freqüentado por
estudantes da rede pública e particular, em visitas guiadas; mas para a
e-massa isso é detalhe;

- a enxurrada de mensagens no Twitter com o tag
#devolvaodinheirobethania, por conta da autorização do Ministério da
Cultura para captar recursos para o projeto de um
site da
cantora sobre poesia. Não havia dinheiro a ser devolvido, apenas
permissão para captar, mas a e-massa não se preocupou com esse detalhe,
nem em se informar sobre como funcionam as leis de incentivo. Chegado a
uma polêmica, aliás, o músico Lobão deu sua contribuição à e-massa,
tuitando críticas à “Máfia do Dendê”, “essa MPB formada por cadáveres
insepultos querendo permanecer no presente contínuo através da chapa
branca”;

- por fim, a divulgação ilegal na internet de fotografias íntimas da
atriz Carolina Dieckmann provocou a reação em (e-)massa de internautas
que transformaram a vítima em réu, outro hábito recorrente da e-massa:
“É marketing!”; “Ela está querendo aparecer na mídia!” etc. Esses mesmos
internautas, em muitos casos, acessaram e compartilharam as imagens,
apesar do alegado desinteresse nas fotos.
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Se, quando limitada à expressão irresponsável de ressentimentos
pessoais coagulados, a ação da e-massa já pode ser bastante grave e
nociva, muito piores são e serão os casos em que ela estiver a serviço
do “e-poder”. Isto é, daqueles que, independente de partido ou
ideologia, perceberem e souberem manipular o caráter impulsivo e volúvel
da e-massa, a rapidez e a paixão com que ela abraça qualquer causa.
Esse risco é potencializado pelo fato de estarmos em ano de eleições:
é fácil visualizar campanhas concebidas para canalizar energias
coletivas e ganhar a adesão cega de pessoas comuns, honestas e até
bem-intencionadas, mas para quem a pressão social para tomar partido, de
forma maniqueísta e incondicional, pode ser irresistível. Depois de
feito o estrago, é difícil voltar atrás. A tentação de abrir mão de
pensar antes de dizer dizer sim (ou não), para ser reconhecido e aceito
pelos pares, pode ser difícil de rejeitar quando a alternativa é o
banimento simbólico, moral e social. Elias Canetti demonstrou que isso
não costuma acabar bem.